Encontrei este interessante texto, do dia 20 de fevereiro, no site redsharknews.com, e decidi traduzi-lo aqui e no blog Fotografia & Ensino. É de autoria de David Shapton, colunista norte-americano, que escreve em periódicos desde 1998 e que trabalha com áudio e imagem há mais de 25 anos.


Se quiser obter o melhor do digital, arranje uma câmera de filme por David Shapton

Câmeras antigas nos ensinam lições essenciais

Estive em Leeds (Inglaterra) nesta semana e deparei-me com um bela loja de acessórios fotográficos. Vendia somente câmeras vintage – incluindo a SLR Zenit que foi minha primeira reflex, quando eu tinha apenas 17 anos. Era um equipamento formidável, por custar pouco e ser praticamente resistente a explosões nucleares (isso eu posso provar: comprara uma teleobjetiva russa para ela e certa vez esqueci o conjunto sobre o teto de meu carro; após rodar por algum tempo, vislumbrei pelo retrovisor a câmera rolando no asfalto atrás de mim. O resultado foram apenas alguns arranhões – no asfalto. A lente continuou funcionando, apesar de começar a parecer um moedor de pimenta quando se acionava o anel de zoom.)

Não consegui deixar a loja por algum tempo. Havia algo na beleza das câmeras e sua história. Não consigo explicar muito bem, mas impressionava pensar que essas máquinas não dependiam de softwares e atualizações e nunca apresentariam “bugs”. Nada eletrônico. Tinham tudo do que se precisa para fotografar, e se quebrassem, podiam ser consertadas.

Fui levado a uma prateleira com um punhado de câmeras de médio formato: Mamyias, Hasselblads, Yashicas – máquinas que poderão durar tanto quanto as pedras de Stonehenge.

 

Preciso comprar uma!
Agora estou pensando seriamente em comprar uma máquina dessas. Elas não são caras (até que você comece a usá-las, rs) e as imagens que produzem são impressionantes. Tenho um amigo – esse fotógrafo profissional – que possui uma Mamyia, e há algo insanamente bom nas fotos que tira com ela. Talvez seja a profundidade de campo rasa, ou o tamanho do quadro. E é quase certo que também tem a ver com a natureza química do filme.

Passei o resto do dia em meu celular e depois vendo e-mails em meu tablet, como de costume. Mas por pelo menos uma hora e meia fora transportado para outro mundo, onde tudo era diferente e também melhor, em certos aspectos.

Inesperadamente, estamos tendo agora uma enorme discussão no RedShark sobre vantagens do analógico sobre o digital. É daquele tipo de discussão que, uma vez que começamos, não conseguimos parar. Mas tudo bem, porque esse tipo de discussão atinge o âmago do que fazemos ao trabalhar criativamente nos tempos modernos.

Havia pouco tempo, discutíramos sobre a preferência de certas pessoas pelo som do disco de vinil. Esse já é um assunto indiscutivelmente pertinente: conheço muitos entusiastas da música que apresentam excelentes argumentos. Ainda preferem o som do suporte “cientificamente” inferior, mas preferido por muitos.

Se você procurar nos comentários do artigo verá que é um tema recorrente. As gravações em vinil eram feitas de maneira diferente, masterizadas de outra forma. Se nunca trabalhou no ramo do áudio, pode não estar familiarizado com o termo “masterização”, mas saiba que é uma questão central em todo o processo de gravação.

Quando um disco é fabricado, há uma fita “master”, que é uma gravação estereofônica em dois canais. É o melhor tipo de gravação que os gravadores podem querer. Entretanto, não é necessariamente o melhor suporte de onde reproduzir cópias, porque o disco que chega ao consumidor tem propriedades físicas diferentes. O vinil tem uma latitude limitada, isto é, você não consegue ouvir determinados sons que sejam excessivamente altos: a agulha poderia pular de uma trilha para a outra. Mas os grandes mestres do vinil conseguiram contornar o problema: eles sempre

souberam que a agulha se move mais devagar quando vai em direção ao centro do disco – é por isso que as baladas mais calmas se encontram até a região central da gravação.

Os CDs, em contrapartida, são feitos de números. Esses números são sempre representados por um ponto de mesmo tamanho, e por isso não há problemas com relação à posição das músicas no disco. Assim, você poderá ter sons altos em qualquer ponto. E é aqui que começa o problema: de acordo com os comentários em nossa discussão vinil versus digital, produtores e engenheiros de som estão conspirando para deixar o volume nos CDs o mais alto possível.

Essa seria uma das razões para haver tanta diferença entre uma mesma música tocada a partir do vinil e do CD. Não é de se estranhar a preferência pelos discos antigos, portanto.

É verdade que esse é um problema específico do áudio, mas não deixa de ser um exemplo importante. As pessoas têm se preocupado muito com o “meio”, ou “suporte” que contém determinada informação. Historicamente, o vinil esteve disponível por tanto tempo (e não por isso deixou de funcionar) que seus caprichos e manias acabaram fazendo parte de nossa cultura.

Um comentário sobre vídeo: é mais ou menos a mesma questão que a fotografia. Especialmente no que se refere a câmeras antigas.

O filme não é perfeito

 

O antigos filmes fotográficos – ou mesmo os modernos – não são perfeitos. E tampouco o são as câmeras analógicas. Mas ofereça-os a um fotógrafo talentoso e você terá um resultado mágico. Não creio que tenha existido na história um crítico que tenha rejeitado uma fotografia só por ela ser analógica ou digital.

E, sim, você se comporta de maneira muito diferente quando fotografa com filme. Você tem um número limitado de cliques. Se estiver fotografando com uma câmera realmente antiga você precisa transportar o filme entre uma foto e outra – ou até mesmo trocar as chapas. Você compõe com mais atenção. E por quê? Porque tudo está correndo em outro ritmo.

Com recursos digitais, você tira quantas fotos quiser e escolhe somente as melhores. Mas se tiver em mente que cada foto irá lhe custar dez dólares para ser processada, todo o processo naturalmente ficará um pouco mais lento. E provavelmente melhor.

O mesmo acontece com o vídeo: o cinema feito com película tem um custo tão alto que tudo deve ser planejado nos mínimos detalhes. Com certeza, isso causa diferença no resultado final.

Comecei no mundo analógico mas fui levado ao digital muito rapidamente: usava áudio digital nos anos oitenta e vídeo digital no início dos noventa, então estou muito ligado à cultura digital.

Mas olhar para essas câmeras antigas mudou um pouco meu pensamento. Tenho certeza disso. Não há razão para as pessoas não gastarem mais tempo compondo suas fotos, e aplicarem mais do pensamento analógico ao seu trabalho hoje. Podemos fazer de conta que estamos usando filme – o que não significa que temos de esperar um dia inteiro para obtermos nosso resultado – mas sugiro que deveríamos pensar um pouco mais e sermos mais cuidadosos. Era assim que eu fazia no começo. Minhas primeiras câmeras não tinham nenhum tipo de medidor de exposição e nem foco automático. Eu precisava usar um fotômetro. Precisei entender o ISO, a abertura do diafragma e a velocidade do obturador. Demora mais para aprender assim, aos poucos – mas acaba se tornando parte de você, mesmo quando se tem dezessete anos. Tirei um punhado de fotos nos arredores da casa de meus pais. Era um laboratório excelente para compreender a luz, tanto em dias de sol com fortes contrastes quanto em tempo nublado. (E percebi que os dias mais escuros eram melhores para fotografar detalhes nas cascas de árvores e flores, por ter uma luz diferente e mais analítica.)

Anos depois, visitei Berlim, muito tempo antes de o muro cair. O local era elétrico: duas superpotências encarando-se através da rua. Consegui visitar o Leste porque tinha um amigo militar, então tirei fotos dos dois lados. Hoje em dia, as fotos que encontro dessa época têm uma qualidade atemporal, e ainda assim características específicas daquele momento. Têm uma presença única. Era a fotografia mais básica, mas também a mais verdadeira.

É claro que essa é uma discussão complexa. Algumas câmeras digitais funcionam muito bem com pouca luz, e isso nos faz agir de maneira diferente. Mas é mais uma razão para deixarmos de tomar certos cuidados. Quando as câmeras forem capazes de fotografar paisagens à luz de velas, também não pensaremos como no tempo do filme, embora pudesse ser útil fazer de conta que podemos estar desperdiçando alguma coisa.

O que estou dizendo é que toda uma cultura e toda uma ciência foram construídas ao redor de um suporte plástico, que é o filme. Aprendemos coisas boas e também inúteis com isso. Mas não é razão para jogarmos fora o conhecimento acumulado por tanto tempo só porque estamos usando câmeras digitais agora. O digital traz liberdade, mas também a tentação de acreditarmos que tudo o que sabíamos não tem mais utilidade. Será vergonhoso se agirmos assim.

Câmeras antigas são baratas hoje em dia, mas continuam sendo tão boas quanto eram em sua época. Se quiser recostar-se em um oásis de tranquilidade dentro de nosso louco mundo moderno, arranje uma para você!


Acesse o texto original aqui.

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